terça-feira, 13 de junho de 2017

Reflexão Literária #04 - Considerações sobre a Intensidade

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Reflexão Literária #04 - Considerações sobre a Intensidade








Olá, gente!

Primeiramente desculpem o atraso, não consegui cumprir meu planejamento de tarefas e precisei dar prioridade a uma apresentação no final do mês de maio, o que acarretou nesta falha minha. Espero que me perdoem. Gostaria também de explicar de antemão a minha possível e provável ausência no mês de julho. Estamos prestes a receber nossa filha e precisaremos de um tempo de adaptação, em virtude disso não sei se conseguirei dedicar-me a escrever o próximo texto.

Espero também que não tenham perdido o apetite sobre as considerações que fiz com carinho.    


Neste texto adentraremos nos aspectos internos da noção de “presecialidade”, a qual identificamos, no último texto, como sendo a característica que possibilita a criação de vínculos potencialmente artísticos entre autor e receptor em textos pessoais. Dividimo-la, por hora, em 6 partículas rudimentares que apesar de independentes são inter-relacionadas, às quais denominamos: Intensidade. Profundidade, Transparência, Riqueza, Construção Imagética, Complexidade. Esse conjunto de fatores, uma vez postos em equilíbrio, dá origem à potência poética que define textos artísticos. Na presente reflexão, veremos como isso funciona na prática e nos debruçaremos, com maior afinco, sobre a Intensidade.

Antes, porém, de adentrarmos no tema propriamente dito, considero importante discutirmos mais amplamente as relações entre as partículas rudimentares para que fiquem mais claras e palpáveis as futuras colocações e explicações sobre esses aspectos da criação literária.

Para qualificar os mecanismos que regem a noção de “presencialidade” e, por conseguinte, a potência poética, venho usando termos que podem parecer contraditórios, se não forem analisados de um ponto de vista amplo. Ao definir as forças internas dos textos artísticos como independentes e inter relacionadas, a ideia é de que a relação entre elas está superposta à individualidade independente de cada uma no ambiente contextual da realização da prática textual, que se dá apenas através da interação destes aspectos literários mínimos.

Simplificando, com a independência das partículas rudimentares, quero formular o pensamento de que é possível discerni-las e, munido das ferramentas certas e das instruções necessárias, trabalha-las e reelaborá-las isoladamente, para que o texto - resultante da combinação das ações dos mecanismos e da harmonia por elas gerada - se unifique, se engrandeça e atinja o equilíbrio que gera a potência poética.   

Por outro lado, a inter relação que existe e deve existir entre esses aspectos fundamentais em um texto artístico é tamanha que, apesar de não impossibilitar a independência dos fatores, pode, através de uma criação ou modificações em um deles, acarretar em interferências ou harmonizações em partes ou na totalidade dos outros.  

Por isso, em diversas ocasiões será necessário que, dentro do estudo de uma das partículas rudimentares, toquemos em outras ou analisemos o todo da obra.

Explicado isto, podemos iniciar nosso mergulho nos meandros da intensidade.
Para abrirmos uma discussão sobre esse tema, necessitamos entender o que é intensidade dentro de um contexto literário e para nortear esse primeiro ponto, tomarei emprestado o raciocínio que a amiga Zilda Matric me deu em resposta a uma postagem que fiz questionando sobre o que é intensidade. Ela sugeriu uma divisão semântica inusitada que me auxiliou a chegar na melhor definição que consegui encontrar para o fenômeno da intensidade literária.

Geralmente pensamos na origem do termo “intensidade” como sendo a substantivização do adjetivo “intenso”, ou seja, a matéria da qual são feitas as coisas intensas. Dessa forma, conforme consta nos dicionários, a palavra “intensidade” se deriva do radical (parte da palavra que remete a um significado primordial ao qual um vocábulo se refere) “intenso” + o sufixo (parte acrescida após o radical para transformá-lo em outra palavra relativa ao significado da palavra original) “idade”, que indica que um adjetivo foi transformado em substantivo.
       
Entretanto, fazendo uso de um pensamento especulativo que me foi aberto pela já citada amiga, nossa língua possui o termo substantivo “tensão” de onde provavelmente se derivou a flexão para o adjetivo “tenso” e temos, também, termos onde o prefixo (parte acrescida antes do radical para transformá-lo em outra palavra relativa ao significado da palavra original) “in/im”, que normalmente indica o antônimo ou a negação das palavras as quais se agregam, comumente  adjetivos, como, por exemplo, inapropriado, inativo, indisponível, inexplicável, impecável, entre outras tantas; possui o significado de “voltar para dentro” a ação de verbos. Nestes casos, muitos dos verbos se acoplaram há tanto tempo ao prefixo que não existem mais em sua forma natural em nossa língua, como, por exemplo, “incluir”, cuja junção do prefixo ao verbo ocorreu ainda no Latim (língua falada no antigo império romano da qual se originaram muitas línguas, entre elas, Português, Espanhol, Italiano e Francês), derivado de “in” (em) + “claudere” (fechar). Clauder, clader ou claer, que seriam possíveis evoluções da palavra já não existem em nosso idioma. O mais próximo em etimologia e em semântica é “enclausurar”. Outros verbos que possuem um histórico linguístico similar: inserir, imprimir, invocar, imergir, entre outros.
     
Para que toda essa explicação? Primeiramente, analisemos como nossa língua transforma esses verbos em substantivos. Observem o padrão do processo: incluir-inclusão, inserir-inserção, imprimir-impressão, invocar-invocação, imergir-imersão. Não são todos os verbos que partilham deste padrão, vejam: ocorrer-ocorrência, divergir-divergência, proceder-procedência, e há ainda outras derivações possíveis.
Alguns destes substantivos ainda apresentam um processo de adjetivação muito característico, percebam: inclusão-incluso, impressão-impresso, imersão-imerso...

Pois bem, reconsiderando agora a etimologia da palavra “intensidade”, vemos que pode ser dividida in+tensão+idade. substantivo que obedece ao padrão descrito acima, intenção, que remete a estar na tensão de (pronto para ou disposto a) realizar uma ação.   

Há bases que sustentam essa teoria, fiz uma pesquisa na internet e encontrei um site de etimologia muito bom chamado “Origem da Palavra”(clique no nome para visitar), onde descobri que “intenção” e “intensão” (sim, segundo o site a palavra existe também grafada com S e significa conferir energia) derivam-se do latim “intensio” (alongamento, estiramento, esforço), de in (em)+ “tendere” (esticar, estender).

Portanto, pode-se considerar que a intensidade de um texto é o conjunto de tensões internas e cargas emocionais que este exerce sobre o seu receptor. Em textos pessoais de qualquer gênero, é a atmosfera que as palavras são capazes de criar através da “presencialidade”, quanto envolvimento a presença constituída é capaz de causar em seu leitor/ouvinte para que este queira adentrar e permanecer na atmosfera criada e, por fim, a que efeito de conexão se consegue chegar. Porém, mais do que apenas a força bruta das imagens evocadas, a intensidade de composições artísticas depende da maneira como se realiza este processo. Em outras palavras, não basta possuir a força necessária, é preciso saber como e onde aplica-la para que a presença criada possa atingir seu destinatário com o maior impacto possível e, com isso, abra caminhos que lhe permitam desfrutar não somente da colisão ou da empatia que lhe foi infringida, mas, também, aprecie a penetração nas dimensões abertas pelo texto.   

Devido a sua natureza mais ou menos envolvente, em qualquer gênero pessoal a intensidade é a partícula rudimentar que exerce a função de vivificar ou não o texto, facilitando ou dificultando a aproximação e a possível imersão nos meandros textuais; determinando, assim, não só a existência ou não de um vínculo emocional criado entre o leitor e a presença constituída, mas sua espécie - que se torna perceptível a partir da identificação da carga emocional e das tensões que geram, junto de outros aspectos, uma postura (agradável, agressiva, confidente, libidinosa, esquiva, sagaz, irônica, entre outras) em relação a quem está recebendo o texto e também ao assunto sobre o qual este trata. Nem sempre se usa o mesmo posicionamento para ambos os focos, isto é, para o receptor e sobre o assunto de que se fala, podendo, em muitos casos, até entrar em oposição. Desta maneira, podemos traçar aqui um paralelo entre a intensidade e a transparência para ser estudado mais minuciosamente num texto posterior, porém, já podemos elaborar uma questão.

Será que quanto maior a intensidade de uma presencialidade constituída, igualmente maior é sua transparência?

Como vimos acima, a intensidade, enquanto a carga de um conjunto de tensões expressas em um texto, opera na indução à criação de vínculos através das sensações transmitidas pela presença constituída, portanto, trabalha no campo do contato palpável entre a presença e o receptor da mensagem por ela transmitida. Neste sentido, é fácil imaginar que quanto maior a intensidade, mais a presença é sentida e, quanto mais sentida, mais próxima e mais perceptível. Até ai o pensamento está correto, mas para as presenças textuais, assim como para as pessoas, estar próximo não significa necessariamente se deixar translúcido ou mesmo visível, em certos casos da prosa artística. Por isso, intensidade e transparência são partículas distintas.

Em uma outra analogia, se pudéssemos, de fato, corporificar uma presença literária de um texto, sua intensidade seria o ritmo de sua respiração, os batimentos de seu coração. a força de cada gesto e sua penetração, sua postura, sua proximidade, sua capacidade de causar compaixão, sua ousadia e sedução, seu tom de voz, seu olhar, seu cheiro, seu toque.  Notem que a percepção de todos estes aspectos independe da constituição de uma identidade. Se, por exemplo, formos assaltados por uma pessoa mascarada, ainda assim teremos acesso a grande maioria destes fatores, mesmo que não saibamos nada sobre a identidade do assaltante.

Deste modo, é correto afirmar que há variadas maneiras de trabalhar a intensidade num texto artístico, vou me ater a quatro desta por uma questão de domínio, mas, ao escrever, não tenham medo de sair das linhas que traço e serem criativos. Lembrem-se: Estou partilhando minhas experiências e descobertas para auxiliar no desbloqueio dos caminhos da criatividade, nunca para limitá-los; então encarem o que discutimos aqui como sugestões ou alicerces.

Se transferirmos a presença constituída da analogia que usei acima de volta para o contexto literário, veremos que textos artísticos podem ter variados ritmos de respiração controlados tanto pela tonicidade das palavras quanto pela pontuação, que juntas também conferem aos textos suas entonações. Esses fatores podem ou não ajudar a compor a intensidade de um texto, visto que são imagens um tanto quanto subliminares em um texto, pois, como no cotidiano, não estamos, em geral, habituados a prestar atenção nas nuances da respiração a não ser que seja algo realmente incomum;  essa desatenção acontece também, em menor grau, em relação a tonicidade das palavras que não são intencionalmente enfatizadas. por isso, ao lermos um texto, podemos perder, com mais facilidade, certos detalhes que ficam implícitos além da fronteira da semântica das palavras escritas e, devido a esta situação, deixamos, muitas vezes, o tom do texto escapar junto de informações ocultas.

Pensando nisso, minha sugestão é que usem os recursos de pontuação, ritmo e tonicidade para reforçar a intensidade expressa pelas palavras. Causar oscilação entre entonações é uma boa tática para alimentar a intensidade, sobretudo em um texto poético, mas pode ser aplicado em prosa também.

Pretendo fazer um artigo posterior falando excentricamente sobre a pontuação e a respiração do texto, mas, em linhas gerais, a pontuação correta pode tornar o texto mais fluido e bem definido, indicando que a presença textual está respirando calmamente dando a impressão preliminar de que suas emoções estão serenas e pacíficas. Por outro lado, una pontuação colocada de maneira que desafia a norma da língua (propositalmente ou não) pode tornar o texto tenso por conotar que a respiração está irregular e, portanto, induz a ideia de emoções fortes e conturbadas.

Apesar deste comportamento ser bastante comum em textos de ordem pessoal íntima, tais como cartas e poesias, não deve ser tratado como regra absoluta, pois, dependendo do contexto semântico em que a pontuação correta é inserida, por exemplo, pode demonstrar frieza emocional. Por isso é necessário analisar o contexto geral do texto, mas principalmente notar se a pontuação usada foi intencional e se cabe analisá-la como parte importante do texto ou se esse recurso foi usado de maneira cotidiana, como estamos acostumados a conceber no dia a dia; isto é, sem qualquer cuidado conscientemente artístico, porque, em geral, não nos é habitual pensar que a pontuação possa servir, além das regras impostas pela norma culta da língua (aquela... que aprendemos nas escolas), como um oscilador de frequência respiratória e, ainda mais profundamente, porque somos normalmente condicionados a entender que a arte literária como o desdobramento do sentido da palavra e não do uso da língua como realmente o é.

Os dois fatores juntos contribuem para que a ferramenta da pontuação não seja muito percebida, impossibilitando, muitas vezes, que o recurso atue inclusive como reforço de intensificação, tamanha a nossa desatenção para os detalhes, mesmo que explícitos, que transcendem as palavras, interferindo também na compreensão da tonalidade mais adequada a cada palavra.

Falando nisso, vale lembrar ainda que ausência intencional de pontuação nos textos poéticos tem se constituído como um estilo que visa ampliar as possibilidades de interpretação textual, uma vez que permite ao leitor que escolha a entonação das palavras.

Por todas essas razões, tendo a acreditar que esses recursos devem, sim, acompanhar a criação do vínculo, mas não sejam inteiramente responsáveis pela intensidade de um texto.            

No entanto, há maneiras precisas de realizar a criação de vínculo nos valendo justamente do que prende atenção, ou seja, o valor semântico das palavras. Como já vimos acima, a intensidade de um texto pode ser resumida como o impacto das sensações causadas através das imagens sensoriais evocadas pelos gestos efetuados pela presença constituída, então, quanto mais sensações físicas o texto for capaz de causar, mais intenso ele será. Para alcançar esse objetivo é preciso explorar palavras que remetam aos cinco sentidos, às sensações que se deseja obter e aos gestos e ações que causam ou são provenientes das ações de outros.

Exemplos: "O teu toque é tão delicado que espanta o que há de rude em meu jeito de amar."
                  "Quando me deito, as lágrimas trazem as memórias de um abraço quente e sincero."
                "Minha dor continua crescendo e meus gritos rasgam o silêncio hospitalar que me sonda em segredo!"
                "Nossos beijos avassaladores são erupções de um prazer escondido sob um segredo frio."
                                                                                          
Acabo de criar essas quatro frases que poderiam ser encaixadas em qualquer texto de gênero pessoal, fosse poesia, romance, carta ou etc. Creio que todos concordam que são frases relativamente simples, talvez a exceção da última que é um pouco mais metafórica, e que, embora o grau da intensidade possa variar de pessoa para pessoa, todas as frases detém uma capacidade de envolver o leitor nas diferentes atmosferas sugeridas por elas. Em maior ou menor escala, podemos sentir, sem grandes dificuldades uma intimidade confortável provavelmente conjugal na primeira frase; uma saudade um tanto quanto depressiva, podendo ser de natureza afetiva, amistosa ou familiar, na segunda frase; na terceira, a angústia, o sofrimento e o desespero de conviver diariamente com uma dor que pode ou não ser física e, na quarta frase, a liberação intima e violenta da excitação erótica por um parceiro socialmente inadequado, seja lá por qual razão o for.

Esse entendimento das situações decorre do envolvimento causado pelas palavras que indicam a sensação da maneira como se toca, postura corporal, potência vocal, temperatura, o gesto e o ambiente. Sim, a descrição, ainda que mínima, do ambiente em que a presença se encontra ajuda o cérebro do leitor a se situar no espaço onde a cena descrita se passa, facilitando a empatia. Introduzir elementos que façam parte do cotidiano social também é uma boa ideia para criar vínculos.


Claro, pra quem se interessa pela literatura artística, sobretudo por poesia, talvez as dicas principais sejam: Fuja das relações óbvias entre sentido e sensação, pois, ao causar choque de sentidos, acrescentamos a potência do estranhamento à mistura, ganhando intensidade sem perder profundidade. Por exemplo, "escutar gritos" é intenso, mais intenso ainda é "sentir gritos" ou, talvez, melhor ainda, usando a ideia de Manoel de Barros, "escutar cores". A segunda dica é moderar a intensidade com a profundidade para atingir a riqueza e a transparência necessárias ao tema, à abordagem, e à mensagem desejadas. 

Em todo o processo de criação da intensidade, as onomatopeias (figura de linguagem que permite a representação em letras de um som que contenha em si um significado sem constituir uma palavra, como por exemplo estalar a língua "Tsc,tsc" , ou sons emitidos por animais, "miau" ), as prosopopeias (figura de linguagem que  permite dar emoções ou ações humanas a objetos inanimadas ou animais) e o estribilho (repetição constante de uma palavra frase ao longo de um texto) são grandes aliadas, pois, podem ajudar na tanto construção do ambiente, tanto auxiliar na descrição da atitude da presença constituída; atuando como ótimos recurso sonoros em poesias.             

No mais, criatividade, irreverência e ousadia!!!

Embora, uma vez que se entenda o mecanismo que a rege, a intensidade tenda a ser fácil de ser trabalhada, é preciso salientar que, mesmo se valendo de todos mecanismos mostrados acima, ó possível que a intensidade gerada por uma presença constituída pode ser facilmente desfeita por entrar em desacordo com outras partículas rudimentares.que estejam em desalinho com a sua proposta. A principal ressalva nesse sentido, em meu entender, é em relação a alterações despropositadas de complexidade, sobretudo no que tange a oscilações bruscas no vocabulário efetuadas por descuido ou, mais comumente, por noções desnecessárias de erudição léxica ou variação linguística.

Exemplifico: "Te quero como anseio pela noite mais escura depois de um dia difícil, pra te fazer brilhar enquanto eu descanso. Te amo como se ama amanhecer, com medos e vontades de te conhecer porque tudo que há em você ainda pode me surpreender.Manifesto meu estado de graça de forma abrupta e inexorável para que se sinta amada de verdade. E me atrapalho entre palavras, pois a função que lhes ensejo inferir é demasiadamente forte e único para caber em pequenos e breves recortes do mundo!            

Percebam que a oscilação de vocabulário arrasta consigo uma amplitude muito irregular de imagens evocadas, essa irregularidade provoca uma disparidade nas sensações criadas,, muitas vezes causando forças opostas, por mais que as palavras em si\transmitam uma ideia contínua. Isso ocorre porque, de certa forma, a mudança repentina\de linguagem quebra a atmosfera que nossa mente cria para situar os gestos que esta vendo acontecer, é como se trocássemos repentinamente não só o ambiente, mas, como consequência desta brusca ruptura, reavaliamos a intenção e o significado dos gestos, porque a variação linguística afeta a transparência da presença constituída do texto.

Para entendermos melhor, imaginemos que ao ler um texto estamos assistindo a um filme. Digamos que o ator do filme está na cozinha de uma casa da campo falando numa linguagem simplória com uma pessoa gostar dele, sem cortar a cena esse ator e colocado repentinamente em um palanque político em uma praça lotada, mas continua com o mesmo assunto, como se estivesse no ambiente anterior  falando com a mesma pessoa, sem alterar o tom de voz, adequando somente a linguagem.  Não seria estranho?! Mas se bem utilizado, isso pode se tornar um recurso da criatividade,. Tudo depende do uso preciso de cada coisa. Uma mudança gradual na linguagem pode indicar mudança de padrão social, por exemplo.             

O exercício de hoje se resume em aplicar as percepções derivadas desta leitura em um texto livre e refazer a mesma enquete feita no exercício da reflexão anterior para efeito de comparação.

Abaixo alguns textos ou trechos de vários autores, brevemente comentados por mim no tocante ao tema trabalhado na presente reflexão para melhor visualização prática dessa teoria, Aproveitem.  .

Antes, porém, gostaria de relembrar que em virtude do nascimento de minha filha, previsto para este mês, pode ser que o texto sobre profundidade venha a ser publicado apenas em Agosto, mas tentarei fazer para Julho.

Abraços e apreciem o material abaixo!        


TEM GENTE COM FOME

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu
                                                   Solano Trindade
Observação: Neste poema, podemos perceber que a intensidade vem do estribilho "tem gente com fome". a repetição desse verso vai alimentando a sensação de fome e pressa e ganha a conotação do barulho do trem passando rapidamente pelos trilhos, essa associação é causada pelo terceiro verso "parece dizer" que remete tanto a urgência das pessoas que lotam o transporte quanto a ideia de que o trem parece murmurar a quem está dentro dele. a presença ainda se vale das onomatopeias do apito e do freio para garantir a alusão alegórica a um trem, sendo que o som do freio se equivale a ordem de silêncio, o que confere a profundidade ao texto, pois abre possibilidades de leituras e interpretações.
(...)O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

 Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
(...)
                 Trecho do conto "Amor" do livro "Laços de família" de Clarice Lispector 

Observação: Reparemos como a pontuação acompanha a crise existencial de Ana mesmo não sendo narrado pela própria personagem. Percebamos que ao separar frases que normalmente seriam vistas como uma só o narrador entra na respiração da personagem que reavaliando a vida num momento de ruptura com a aparente segurança que tinha das junção lógica das coisas. Notemos também que a repetição do cego mascando goma é feita pra enfatizar aquilo que causou a crise.       
 

"São Paulo
5:03 da manhã sinto a ferrugem, telefone continua calado.
Chego em casa tomo meu wisky e alimento mais a minha solidão
O gosto amargo insiste em permanecer no meu corpo
Corpo...corpo...está nú...
Gelado com o peito ardendo, gritando por socorro, preste a cair do 14º andar...
A sacada é curta, o grito é inevitável...
Eu vou acordar o vizinho, eu vou riscar os corpos, eu vou te telefonar...
E dizer que eu só preciso dormir..."


     Trecho da musica "Frerte Fatal"  da banda Ira! Composição: Edgard Scandurra  

Observação: Esse texto em minha opinião resume todo uso da intensidade por gestos da presença constituída, pois se vale de sensações físicas para colocar o receptor no clima que o autor idealizou. Começa com uma breve descrição do ambiente e vai se intensificando a medida em que o corpo vai se materializando através das sensações gradualmente evocadas. A pontuação acompanha essa mente agitada e sonolenta, fazendo a respiração ficar lente em algumas ocasiões e acelerada em outras, trazendo a impressão de emoções instáveis e ansiedade.

Convido quem se sentir a vontade, é claro, a partilhar suas descobertas e textos conosco no grupo de debates do facebook Oficina “Sentido Literário”. Podem também comentar lá as reflexões que postarei aqui.

Reitero ainda a minha disposição para conversar via facebook Edgar Izarelli de Oliveira ou pelo e-mail: edelua.artes@gmail.com

Gratidão pela atenção! Desejo a todos grandes inspirações e uma ótima semana!

Edgar Izarelli 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Reflexão Literária #03 - Aprofundamentos na dimensão da potência poética



Olá, gente!

Antes de mais nada, gostaria de informar que estou fechando parcerias para realizar encontros presenciais desse oficina. Por hora, tenho parceria firmada com dois espaços culturais, o Circulo Palmarino (Jd. Presidente Kennedy - Embu das Artes) e a Biblioteca Comunitária EJAAC (Valo Velho - São Paulo), que gentilmente disponibilizarão seus espaços semanalmente  e, claro, mantemos a parceria com Rotisserie e Doceria orgânica mais deliciosa dessas terras, a Renataly, que custeará uma parte dessa empreitada cultural! Gratidão querida, Nataly Mota e toda a família! Agradeço também aos coletivos que já abriram as portas de seus espaços! Espero que essas parcerias rendam bons frutos frutos a todos nós! 


Infelizmente, ainda preciso de mais recursos para iniciar e manter o projeto nesses dois locais ao longo do ano, mas. se o universo conspirar favoravelmente, em breve divulgarei as datas e horários de nossos encontros! 



Resumo da proposta desse projeto

A minha proposta é a seguinte: Postarei mensalmente, aqui no blog, uma reflexão sobre fazer literatura.  Poderei utilizar vídeo, textos de outros poetas (sempre com nome dos autores), estarei disponível para conversas no meu facebook e no e-mail da companhia. O grupo de debates da Oficina “SentidoLiterário” no facebook será reativado. Para além disso, penso em firmar parceria com a Associação EMBUsca DAS ARTES parta utilizar o projeto Literatório do núcleo de literatura da entidade como um meio de haver reuniões presenciais para partilha com grandes nomes da literatura local; isso também será desenvolvido uma vez por mês. Outro objetivo consiste em conseguir parcerias com pequenas empresas da região para custear encontros semanais em locais periféricos para construir o fazer literário junto a jovens e adultos, gratuitamente. 

Se você é empresário(a) e se interessou pelo projeto, mande um e-mail para edelua.artes@gmail.com ou deixe seus contatos nos comentários que eu mando os detalhes do projeto.

Agora vamos começar a reflexão.

O texto abaixo é um oferecimento de:



Localizada na Rua Belo Horizonte, nº 124, no charmoso Centro histórico da inspiradora Embu das Artes, a rotisserie doceria encanta pelos primorosos sabores sofisticados de suas deliciosas iguarias, preparadas com ingredientes orgânicas cuidadosamente selecionados pela gastrônoma Nataly Mota e sua família, bem como pelo amistoso acolhimento em seu ambiente intimista. Tudo para te proporcionar a mias sensacional, deleitosa e nutritiva experiência gastronômica! Para mais informações acesse o facebookhttps://www.facebook.com/Renatalydoces/?fref=ts ou ligue para (55) (11) 4385-1192.

Reflexão Literária #03 - Aprofundamentos na dimensão da potência poética         
     






Hoje daremos prosseguimento ao nosso mergulho naquilo que denomino “Potência Poética”, nos aprofundando em suas dimensões mais viscerais.

Para começarmos, gostaria de relembrar rapidamente o que já descobrimos sobre o assunto, só para uma breve recapitulação. 

Primeiramente, no texto “Todo mundo PODE ser um artista da palavra”, vimos que a arte, como um todo, é, na concepção que convosco desenvolvo, uma habilidade presente em todos os humanos e, munido do conhecimento mais básico sobre como fazer, cada indivíduo pode progredir independentemente, criando e evoluindo seus processos criativos para construir algo que chamei de estilo próprio. Começamos a conceber a ideia de Potência Poética como o equilíbrio de vários fatores que constituem textos artísticos. Ainda nesse texto, definimos o artista da palavra como a pessoa que consegue empregar, de maneira criativa, a língua que fala, visando transmitir uma mensagem de determinada maneira para que haja algum impacto no receptor.

Já no segundo texto, “Desvendando a Potência Poética”, fizemos a distinção entre a função poética, que é uma possibilidade de utilização da língua que pode ser mesclada a outras aplicações da língua para um fim não artístico, e a potência poética. Definimo-la como sendo os mecanismos linguísticos intrínsecos que, por possibilitar o acionamento e o ajuste da função poética, tornam-se essencialmente palpáveis apenas nos ambientes em que a função poética predomina sobre as outras, isto é, nos textos artísticos. E estudamos como é possível trabalhar a arte da palavra valendo-se do conhecimento dos sentidos das palavras relativamente corriqueiras para, através de jogos de oposição ou de sobreposição de sentido, criar um efeito inesperado que provoca no receptor a reflexão, quer seja por empatia, quer seja por ruptura.

Com esse exercício de entender, ainda que rasamente, o mecanismo de constituição de textos artísticos com base no sentido individual de cada palavra para criar um mosaico resultante da sucessão das imagens evocadas, compreendendo como este conjunto de paradigmas atinge a mente do receptor da mensagem, despertando nele o interesse pelo desdobramento do que foi expresso; vislumbramos um esboço ainda muito técnico e superficial do conceito de potência poética.

Para adentrar mais profundamente no assunto, se faz necessária uma discussão mais apurada acerca do que pode ser chamado de um texto artístico. Claro que o texto terá uma visão pessoal, baseada nas experiências, conhecimentos, ideologias, crenças e políticas que tenho sobre o assunto; porém, tentarei ser o mais criterioso quanto possível. Essa discussão é de crucial importância porque é a partir da contextualização do que é a arte expressa através da palavra que compreenderemos a real dimensão do que chamo de potência poética.  

A literatura artística, como todas as outras artes, se deriva da ânsia de expressar e comunicar sentimentos, opiniões, experiências, ideias, desejos, sonhos, imaginações, expectativas e outras matérias pessoais, portanto, trata dos assuntos pertencentes à natureza e à essência humana em seus vários aspectos, suas diversas nuances e personalidades. No entanto, essas características são comuns a todos os textos que podemos produzir, posto que a comunicação é a função primordial de qualquer língua, bem como de qualquer forma de expressão artística. Daí, podemos concluir que, se entendermos a arte da palavra enquanto a técnica de se comunicar através das palavras, todo texto é um texto artístico. De fato, saber tecer um texto de qualquer espécie exige um trabalho, um labor com a palavra. Quanto mais bem elaborado for esse trabalho, mais o texto em questão atingirá seu objetivo de deixar clara ou subliminar a mensagem que se quer transmitir.

Então, o que diferencia a parte da literatura que estamos acostumados a entender como artística (poesias, contos, romances e etc.) do resto da literatura? Por que uma reportagem de jornal ou um texto didático são construções textuais tão diferentes de uma poesia ou de um conto?

Descartemos por ora a dimensão da técnica de composição textual, até porque as técnicas e convenções que realmente distinguiam arte de outros textos já foram extrapoladas pelo pós-modernismo e arte contemporânea. Vamos dar um passo mais ousado em direção a um estágio anterior à realização prática da técnica, para melhor pontuar aquilo que divide a literatura em duas grandes e distintas "regiões". Atentamo-nos à intenção da técnica.

Falando de maneira geral, a língua pode ser usada com duas intenções: comunicar a outrem sensações, sentimentos, opiniões, acontecimentos, pensamentos particulares, individuais e, portanto, singulares e/ou passíveis de uma interpretação particular e intima; ou noticiar acontecimentos, instruir acerca de teorias, manifestar ou formular pensamentos de maneira científica, factual e, portanto, imparcial, ou seja, busca transmitir a impressão de verdade, na maior parte das vezes, impossibilitando interpretações pessoais sobre o fato.

Notoriamente, no primeiro caso, a  pessoa, ao tecer seu texto, deseja, de alguma forma, criar um vínculo ou aproximação pessoal com seu receptor, para isso, a linguagem textual será carregada de estímulos que tragam ao texto a sensação de presença do locutor, não necessariamente em primeira pessoa, embora seja o mais usual para atingir esse efeito de, me permitam a criatividade, "presencialidade". 

É importante observar que não estou qualificando a presença, apenas afirmando a noção de sua existência. Se essa presença é humana ou não, se está presente para agradar ou agredir, fica a critério do indivíduo que a constituiu enquanto presença. Clareando, chamo de presença desde o autor exposto, como no caso de uma carta, até uma existência imaginária criada para narrar uma história fictícia, abrangendo, portanto, o que hoje os literatos definem por eu-lírico. 

Por outro lado, a segunda intenção exige do autor o máximo afastamento possível por necessitar de uma aparente neutralidade de opinião. 

Digo "aparente" porque uma neutralidade total e absoluta  é impossível de se alcançar, posto que o que definimos por língua é um conjunto organizável de variados recortes da realidade - as palavras. Como já vimos no texto anterior, no exemplo da borboleta x mariposa, cada palavra selecionada para compor um texto carrega junto de si toda uma bagagem cultural que confere ao texto uma atmosfera e denota, sim, mesmo que muito bem mascarada pelo distanciamento entre autor-receptor, a visão de mundo e o impacto que a informação transmitida tem sobre o emissor. 

Permitam-me um breve desvio no texto para exemplificar e esclarecer essa questão.  

Tomemos para efeito de comparação as seguintes manchetes fictícias.                

" Terrorista detona bomba em badalada casa noturna paulistana e mata 3 sócios e 5 prostitutas."  

"5 profissionais do sexo e 3 investidores são mortos por fundamentalistas religiosos em atentado à casa noturna em São Paulo."

Escolhi o tema polêmico para que fique bem claro como a seleção das palavras definem a visão de mundo de uma pessoa. 

Apesar de noticiarem a mesma ocorrência de maneira igualmente neutras do ponto de vista do envolvimento pessoal, as duas manchetes carregam recortes diferentes do fato a que se propõem narrar.

Na primeira opção, o foco está no atentado e na estirpe do local onde o ato ocorreu, dando a sensação de que a importância da noticia está na fama do lugar; as vítimas são claramente tratadas como informações adicionais, principalmente as mulheres, que são colocadas por último, ou seja, aquilo que não está em destaque e são vistas de maneira vulgar, porém deixa aberto o significado de terrorista, que é aquele que provoca terror. 

Já na segunda opção, as vítimas são tratadas com maior respeito e são colocadas no foco, deixando o acontecimento em segundo plano e não coloca destaque no local, mas associa a imagem do agente da explosão a de um tipo muito específico de pessoa, o que pode gerar revolta social contra pessoas que se encaixem no padrão apontado.

Voltando à espinha dorsal da discussão sobre as "regiões" da literatura.  

Agora que já dividimos o vasto terreno da arte de tecer textos em duas grandes esferas, está na hora de entender que esses continentes têm áreas próximas em maior ou menor escala, fronteiras e intersecções, onde eu enquadraria a literatura que venho chamando de "artística" (poesias, contos e romances), críticas diversas, reflexões, manifestos e discursos políticos, entre outros; e áreas extremas onde um não toca o outro, que seriam, por um lado, cartas pessoais e por outro, textos didáticos e informativos.  

É importante notar que, para o lado neutro, a variável, além do grau de aproximação do leitor, é o grau de opinião que pode ser claramente expressa, enquanto que, do lado pessoal, a variação é quantas pessoas o texto pode atingir com sua profundidade máxima. Dessa forma, a escala dos textos neutros vai se tornando pessoal, enquanto que a escala dos textos pessoais é restrita apenas pela fronteira da língua no qual o texto é elaborado. 

Explico-me melhor. Pode-se tecer um texto pessoal, ou seja, a partir das particularidades individuais de cada pessoa, de determinada maneira que, mesmo em acordo com as regras e as possibilidades da língua que se fala, o significado interno do texto (aquele que é desdobrável e pode ser interpretado) fique restrito ao idealizador da mensagem, porque as imagens evocadas tem um sentido que, para este, é peculiar, não fazendo parte do senso comum, sendo demasiadamente próprias à sua vida e intimidade. Outras pessoas entenderão apenas as camadas superficiais de textos assim. Pode-se também fazer uso de expressões coloquiais que só um grupo próximo ao autor entende, numa carta, por exemplo. Ou, ainda, tecer um texto que, mesmo sendo cunhado de maneira particular, possibilita, por criar jogos lúdicos com o senso comum, uma profundidade acessível a qualquer pessoa que partilhe do conhecimento da língua na qual o texto foi criado. E é aqui que mora, na minha opinião, o verdadeiro diferencial da literatura artística.

Bons textos artísticos são, no meu entender, aqueles que, através do uso adequado das variadas técnicas, ganham a característica de permitir que o receptor adentre no universo do texto e ali se reconheça a tal ponto que se aproprie de sua mensagem e consiga sentir-se parte daquele mundo. Isso só é possível se o autor conseguir abranger em seu trabalho aspectos inerentes a toda a humanidade e transmiti-los de forma que o conteúdo seja forte o suficiente para causar empatia ou choque em qualquer tipo de pessoa, conferindo, assim, a noção de "presencialidade" ao texto.

Entretanto, conforme vimos ao longo dessa discussão, a noção de "presencialidade", por si só não garante que o texto seja factualmente artístico, pois está presente em qualquer texto da região pessoal da literatura, o que nos remete a pensar que a noção de "presencialidade" é flexível, uma vez que se adequa a várias funções. Essa capacidade de se ajustar a inúmeras situações indica que a "presencialidade" possui alicerces ou forças internas ainda mais subjetivas que constituem, sustentam e dinamizam a essência textual. 
    
Resumidamente, concebo essas partículas rudimentares que dão força e movimento à noção de "presencialidade" da arte da palavra da seguinte maneira

Intensidade - pode ser "quantificada" pelo nível de interesse do leitor em continuar lendo, é a vida do texto, o que nele nos toca enquanto seres humanos. O quanto e de que forma a palavra nos impacta.

Profundidade - o quanto o texto pode ser desdobrada e redobrada, o quão fundo ele chega nos leitores. O quanto a obra nos afunda em reflexões. 


Transparência - quão sincero foi autor ao se pronunciar, quanto há de verdade compartilhada com o leitor, o quão clara fica a intenção do artista. O quanto é possível se transpor para o lugar da presença.

Riqueza - quanto conteúdo de si e dos mundos que o rodeiam o artista consegue transmitir através da obra que constituiu. Quais os valores que a obra traz.

Construção Imagética - como o artista traduz a sua riqueza em imagens para que ela possa ser absorvida e trabalhada. O que o texto nos traz de experiência sensorial. 

Complexidade - de quantos recursos linguísticos o artista se valeu ao escrever a obra, qual a sua técnica (vocabulário, pontuação, presença de figuras de linguagem, etc).

Todas essas forças são independentes entre si e precisam encontrar um equilíbrio para que a noção de "presencialiaide" adquira contornos. Com isso, tento exprimir a ideia de que, por exemplo, um texto complexo não é necessariamente intenso; por outro lado, um texto intenso não goza necessariamente de uma boa construção imagética e assim por diante. Isto quer dizer que a existência satisfatória de UM desses fatores não implica imediatamente no sucesso de outro fator. 

E aqui é preciso compreender que cada força dentre as citadas tem diversos graus. Dessa perspectiva, não existe, por exemplo, a dicotomia Simplicidade X Complexidade, mas, sim, diferentes escalas da mesma força. Assim, um texto mais simples está se valendo de uma escala de complexidade menos complexa, porém, ser menos complexa não significa que é inferior, pois, usar uma linguagem simples pode garantir o bom funcionamento do texto como um todo, tornando-o mais intenso e facilitando a construção imagética, causando maior interesse em um maior número de  pessoas. Por outro lado, um texto mais complexo pode até dificultar a ação das outras forças, ocultando a profundidade e a riqueza atrás da técnica e embaçando a transparência, causando afastamento do leitor e neutralizando a noção de "presencialidade". Portanto, o que chamo de equilíbrio não é necessariamente a utilização da escala máxima de todas as forças ao mesmo tempo, mas o ajuste preciso para que cada texto atinja a máxima expressão da sua mensagem.         

O equilíbrio e harmonia desses fundamentos é o que denomino Potência Poética que é o que diferencia textos artísticos de outros textos. A forma individual com que se trabalha a língua afim de alcançar o equilíbrio desses fatores para produzir o impacto sobre o receptor é o que chamarei de estilo próprio daqui por diante.

Trabalharemos a partir do próxima reflexão mais profundamente cada um dos aspectos rudimentares da noção de "presencialidade".

Para quem quiser exercitar os conteúdos vistos na presente reflexão, sugiro duas atividades interessantes.

Atividade I

Escolha uma notícia, reportagem, texto científico ou didático. Procure preferencialmente um tema para o qual você não tenha uma opinião totalmente formada. Leia-o atentamente, tentando perceber as opiniões pessoais do autor.  Recrie o texto a partir de uma noção de presencialidade (pode ser real ou fictícia) que estava no local onde o texto original mostra, passe a mesma informação mas tomando uma postura de concordância, incredibilidade ou desacato com o autor original.

Atividade II

Crie um texto artístico, ou seja, poesia ou conto, que contenha a sua visão pessoal sobre algum sentimento que você teve na infância. Depois, numa linguagem simples, elabore dez perguntas par amigos questionando-os sutilmente sobre os fatores internos da noção de "presencialidade": Intensidade, Profundidade, Transparência, Riqueza, Construção imagética e Complexidade. Exemplo: O que você sentiu ao ler o texto? Conseguiu visualizar o ambiente onde o texto ocorre?  Mande o texto e as perguntas para dez amigos. Compare as respostas entre si e também com a sua intenção. 

Convido quem se sentir a vontade, é claro, a partilhar suas descobertas e textos conosco no grupo de debates do facebook Oficina “Sentido Literário”. Podem também comentar lá as reflexões que postarei aqui.

Reitero ainda a minha disposição para conversar via facebook Edgar Izarelli de Oliveira ou pelo e-mail: edelua.artes@gmail.com

Gratidão pela atenção! Desejo a todos grandes inspirações e uma ótima semana!

Edgar Izarelli

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Reflexão Literária #02 - Desvendando a Potência Poética



Olá, gente!

Primeiramente, peço perdão pelo atraso do texto.  Aviso que tentarei manter uma regularidade pelo menos mensal, pois percebi que não darei conta de escrever semanalmente. 
Hoje daremos continuidade às reflexões literárias iniciadas na útima postagem.

Começaremos a partir de agora a discutir sobre aquilo denominei, em nosso primeiro encontro, de potencia poética.

Penso que a melhor maneira de começarmos alguma discussão é sempre deixar o mais claro possível o objeto ao qual vamos nos debruçar.

Nosso objeto não é nada palpável, por isso, para ficar clara, a noção depende de muita delimitação. Vamos começar pelo mais simples possível e, depois, vamos nos aprofundando.

Em primeira instância, o objeto de estudo de qualquer artista da palavra é esse conjunto sons e regras a que chamamos língua. É a língua que fornece o conjunto de contornos - os nomes - às ideias, aos sentimentos e às coisas e, portanto, a possibilidade de expressar e entender o que está sendo expresso por outrem. Cada língua existente no planeta é fruto da observação do mundo através de uma determinada cultura, isso dá a cada idioma um conjunto único de sentidos que possibilita ao artista da palavra que trabalhe de infinitas formas dentro do que a língua que fala o permite fazer.

Essa noção básica é realmente importante para os artistas da palavra por conta da impressão de estranheza que se pode obter de coisas simples. Conhecer o sentido das palavras e saber como eles operam em seu senso habitual nos dá a possibilidade de utilizar a língua de forma que não seja a esperada. A essa possibilidade chama-se, em nossa língua, de Função Poética.

Como função poética se define o uso da língua de forma pouco convencional, lúdica e/ou imagética que não seja de natureza informativa (notícias, reportagens, textos didáticos, etc.) ou apelativa (anúncios, ordens, convites). Apesar disto, a função poética não se restringe apenas a textos artísticos, podendo estar presente em qualquer tipo de texto em maior ou menor carga, assim como as outras funções também podem ser encontradas em ambientes artísticos. 

Fica mais fácil assimilar se considerarmos a língua como uma máquina com várias chaves que podem ser ligadas em diferentes combinações e intensidades afim de produzir um único texto. 

Comparar a língua a uma máquina é um uso da função poética usada para exemplificar uma situação dentro de um texto didático, logo é correto pensar que a função pode ser usada para ilustração didática. 

No entanto, e isso é preciso que fique claro, a potência poética que cá estou introduzindo NÃO é a função poética da língua portuguesa, MAS, o conjunto de fatores que podem ampliar ou diminuir os sentidos da língua em textos predominantemente artísticos, ou, valendo-me da analogia maquinário acima, os mecanismos internos que possibilitam a existência, o acionamento e a regulagem da chave da função poética.

Estes mecanismos tendem a ser muito simples de se criar quando se conhece sentidos básicos da língua. Não é necessário, como já disse, dominar um imenso vocabulário para ser um ótimo artista da palavra, basta dominar os mecanismos que regem a arte. Obviamente, quanto mais palavras você tiver disposição maior vai ser a sua gama de mecanismos a serem usados, no entanto, esses mecanismos oriundos da vastidão de palavras são como aplicativos extras para celulares, deixando o aparelho mais equipado e, portanto, abrangendo uma variedade maior de situações, mas se um celular não tiver como entrar em contato com outra pessoa, mandar mensagens, tirar fotos, fazer vídeos e se localizar, será que vale a pena o investimento para adquiri-lo? 

Com um texto é a mesma coisa, SE NÃO HOUVER UM DETERMINADO GRUPO DE  FATORES BÁSICOS, NÃO HAVERÁ INTERESSE NA LEITURA, SOBRETUDO EM SE TRATANDO DE UM TEXTO ARTÍSTICO.       
    
Um exemplo do que estou dizendo: “A borboleta flutuava no turbilhão da noite”. Na frase/verso, as imagens que provocam o impacto são baseadas em contraposição de sentidos; a essa contraposição se chama paradoxo e é uma das figuras de linguagem mais encontradas na literatura de língua portuguesa, pois é relativamente fácil de se construir e, desde que bem usada, ajuda grandemente no processo de alcançar a tal potência poética. Mais adiante em minhas reflexões literárias, abordarei mais profundamente os usos e as operações dos paradoxos, bem como outras figuras de linguagem. Por ora, vamos nos concentrar na simplicidade da razão pela qual a frase em questão ficou tão profunda que nos faz parar para imaginar possíveis continuidades ou tentar desvelar sentidos escondidos.

O segredo está justamente no lugar mais óbvio que poderia estar, isto é, no senso habitual que a língua oferece para cada palavra, individualmente, quando colocado em um contexto que desafia o leitor a fazer uma leitura investigativa. Explico palavra por palavra, para que fique o mais didático possível.

Em nosso idioma, o português, a palavra “borboleta” remete a um inseto com grandes asas coloridas em formato singular, de voo característico e hábitos diurnos, sendo metaforicamente associada a uma transformação positiva e bonita; espécies noturnas similares são popularmente conhecidas como “mariposas” e, além do período de atividade, se diferem das primeiras pelo formato das asas e pelo habito de voar ao redor de luzes, sua conotação comum para nós, falantes do português, é alguém, geralmente do gênero feminino que passa pelo "submundo" da noite ou do misticismo, são ainda relacionadas a maus agouros.

Muitas línguas não têm essa oposição e associam as distintas imagens à mesma palavra, mas já que a nossa possui essa diferença, permite jogos de associação. Isso significa que eu podia ter escrito “A mariposa flutuava no turbilhão da noite”, mas, na minha visão, essa opção não atingiria, assim, isoladamente, uma potência poética tão instigante. Entretanto, dentro de um contexto propício essa frase pode ganhar dimensões maiores e mais profundas. Ao escolher “borboleta” e não “mariposa”, optei propositalmente pelo improvável. Uma borboleta voando à noite é mais potente, enquanto imagem poética isolada, do que uma borboleta voando de dia.

Poderia tranquilamente ser a opção contraria também e a frase não perderia o impacto. Percebam: “A mariposa flutuava no turbilhão da tarde”. A imagem continua fugindo do senso habitual, embora o sentido mude razoavelmente, por conta das outras palavras que constituem a frase.

A palavra “flutuava” remete, no senso habitual, ao ato permanecer sobre a água ou suspenso no ar, sem afundar ou cair, geralmente associado a um estado de inércia, trazendo uma imagem de algo aparentemente leve. Levando em consideração a imagem da borboleta/mariposa, flutuar ganha uma conotação de voar com calma ou se entregar. O contexto geral da frase isolada acaba por sugerir mais a ideia de calma por causa da palavra "noite"/"tarde", que, em senso comum, remetem a descanso e ao fim de um período temporal, se diferenciando pela presença de luz solar e pelas atividades sociais realizadas nesses horários. A palavra "turbilhão" se refere ao movimento rápido de circulação de um líquido ou de gás, um redemoinho, enfim, algo um tanto quanto intranquilo, descontrolado, impróprio, portanto, para uma criatura tão leve e frágil fazer uma coisa aparentemente calma como flutuar, vocês concordam?

Pois bem, essa sucessão de imagens relativamente comuns cria uma atmosfera lúdica na mente do leitor, que pode ter diversas interpretações baseadas em suas experiências de vida, em seus conhecimentos, em suas emoções e sua espiritualidade. Tendo a interpretá-la como metáfora de uma grande ideia extraída de um pesadelo ou alguém ingênuo perdido e chamando atenção em um ambiente inóspito ou misterioso, outras pessoas teriam outras leituras. Tamanha pluralidade de variáveis que surtem influência na interpretação é o que deve estimular o artista da palavra a buscar a própria maneira de se expressar, pois quanto mais íntima for a compreensão das palavras e as razões para a escolha dos termos usados, mais naturalmente flui a correnteza de sentidos que leva a mensagem desejada aos outros. Isso acontece porque dentro de uma organização que nos seja relativamente natural, sentimo-nos livres para usar amplamente a Potência Poética.

Por exemplo, eu usei a frase “A borboleta flutuava no turbilhão da noite” para explicar parte da teoria sobre potência poética porque sinto-me confortável em causar esse choque de expectativa através oposição de sentido. No entanto, esse não é a única forma possível de fazer a palavra ganhar valor.  Observem alguns versos de Viviane Mosé cunha na poesia intitulada "Prosa Patética":

"Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.

Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.

Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região."

Para quem quiser ler a poesia na integra clique AQUI. Garanto que usarei muito este texto e outros da autora, pois admiro muito o trabalho dela. 

Porém, o que nos interessa agora é apenas demonstrar que nem todo texto artisticamente potente precisa necessariamente se basear em oposição de sentido. Nestes três versos, a potência poética é decorrente da sobreposição de imagens com sentidos similares, não exatamente palavras substituíveis entre si, mas semanticamente muito próximas de modo a criar  uma ambientação ilustrativa. Reparem na sequência: Solidão, Sina (destino), Espaço, Extensão, Largura, Páramo (planalto isolado nas montanhas andinas), Planície, Região.

Percebem? Todas as palavras remetem a um lugar espaçoso e aberto, onde se tem a sensação de liberdade e tranquilidade que é justamente a sensação agradável e incômoda da solidão. 

Para quem quiser se exercitar um pouco, a minha sugestão é criar dois textos curtos utilizando, em um a lógica da oposição de sentidos, no outro, a sobreposição de sentidos. Não misturem os dois em um texto só, porque o objetivo, por ora, é experimentar o que flui mais naturalmente.  

Deixo exemplos de como grandes poetas da nossa história utilizaram a oposição e a sobreposição de sentidos, aproveitem a leitura! 

Texto de apoio ao exercício de oposição.


"AS FACAS PERNAMBUCANAS

O Brasil, qualquer Brasil,
quando fala do Nordeste,
fala da peixeira, chave
de sua sede e de sua febre.

Mas não só praia é o Nordeste,
ou o Litoral da peixeira:
também é o Sertão, o Agreste
sem rios, sem peixes, pesca.

No Agreste e Sertão, a faca
não é a peixeira: lá,
se ignora até a carne peixe,
doce e sensual de cortar.

Não dá peixes que a peixeira,
docemente corta em postas:
cavalas, perna-de-moça,
carapebas, serras, ciobas.

Lá no Agreste e no Sertão
é outra a faca que se usa:
é menos que de cortar,
é uma faca que perfura.

O couro, a carne-de-sol,
não falam língua de cais:
de cegar qualquer peixeira
a sola em couro é capaz.

Esse punhal do Pajeú,
faca-de-ponta só ponta,
nada possui da peixeira:
ela é esguia e lacônica.

Se a peixeira corta e conta,
o punhal do Pajeú, reto,
quase mais bala que faca,
fala em objeto direto."

 - João Cabral de Melo Neto


            
 Texto de apoio ao exercício de sobreposição.

"EU, ETIQUETA
 
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comparo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam
e cada gesto, cada olhar
cada vinco da roupa
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente."
- Carlos Drummond de Andrade

Convido quem se sentir a vontade, é claro, a partilhar suas descobertas e textos conosco no grupo de debates do facebook Oficina “Sentido Literário”. Podem também comentar lá as reflexões que postarei aqui.

Reitero ainda a minha disposição para conversar via facebook Edgar Izarelli de Oliveira ou pelo e-mail: edelua.artes@gmail.com

Gratidão pela atenção! Desejo a todos grandes inspirações e uma ótima semana!

Edgar