terça-feira, 21 de outubro de 2014

Crítica sobre "O Ogro e a Tecelã" da Guerreira Xue por Edgar Izarelli


Bom dia, gente!

Tive a ideia de começar a fazer críticas dos livros de autores, principalmente os contemporâneos; mas farei também de autores consagrados. É uma maneira riquíssima de divulgar a literatura e ajudar alguns colegas de profissão, tudo isto enquanto me aprimoro, pois, para mim, ler é pesquisa de campo!      

Hoje, farei uma breve crítica literária do livro “O Ogro e a Tecelã” da Guerreira Xue.
 
Sobre a autora (já a citei neste blog, provavelmente com seu verdadeiro nome, Hilda Milk), conhecemo-na, a Lua e eu, durante a Bienal do Livro. Figura simpática e bastante extrovertida, conversou conosco durante cerca de uma hora, compartilhando conhecimentos e contatos. Ela administra o blog Escritores Sem Fronteiras (1 e 2) e também o grupo no facebook de mesmo nome, onde os escritores partilham contos, poesias, links interessantes, enfim, uma vasta gama de material para quem aprecia a arte da literatura. Vele a pena conferir! (links do final do texto)

Dias depois, nos encontramos novamente e trocamos nossos livros. Acabei a leitura do livro “O Ogro e a Tecelã” alguns dias atrás e estava me dando o tempo certo de sua digestão antes de escrever o presente artigo.

Em linhas gerais, a obra é um livro de contos infanto-juvenis de variadas linhagens genealógicas, quase sempre apresentando características marcantes dos contos-de-fada, o que me deu, em determinadas ocasiões, a sensação de uma releitura de contos já consagrados. Entretanto, contém uma narrativa primária que encadeia as demais, seguindo, basicamente, a mesma linha de raciocínio do famoso texto árabe “As Mil e Uma Noites”. Não sei dizer se tal semelhança foi intencional, mas confesso-me deveras inclinado a acreditar nesta premissa.

Uma outra característica que me chamou demasiadamente a atenção foi o amplo vocabulário utilizado no decorrer de todo o livro, o que foi um tanto surpreendente, artisticamente falando, pois foge à regra básica para literatura infantil, uma vez que não considera a criança incapaz de compreender verbetes requintados da nossa língua. Fico em dúvida de afirmar categoricamente que o uso deste alto calão linguístico seja totalmente deliberado, visando, por exemplo, uma brusca revitalização da norma culta em nossa juventude (processo realmente necessário); é preciso considerar a hipótese de ser natural tal linguagem à autora. No entanto, me parece seguro afirmar que, profissionalmente, usar este vocabulário é um risco que só é assumido, na literatura, por quem realmente a língua; claro, levando-se em consideração o escasso conhecimento que o nosso povo tem da norma culta. Este recurso não atrapalhou, a meu ver, que se mantivesse a oralidade das histórias, mesmo por que ficou evidentemente notória a preocupação da autora em conservar a tradição de se contar histórias para as crianças antes de dormir.

Guerreira Xue, Ed e Lua
Além disto, a maioria das histórias narradas é baseada numa literatura considerada nova, onde os antagonistas têm sempre uma razão e/ou uma personalidade que justificam seus atos. Entretanto, a maioria dos contos presentes neste livro não tem exatamente a figura antagonista clássica, apresentando, muitas vezes, uma situação-problema em seu lugar. É interessante, pois isso propícia a formação do senso crítico, habilidade que é ainda mais incentivada pela própria divisão do livro em uma narrativa primária durante a qual os contos são contados.

Para que todos entendam, a narrativa primária apresenta um menino de dez anos de idade chamado Guga, ele é filho de uma escritora e pergunta a mãe se ela sabe contar histórias. A mãe responde que ela própria escreve histórias e começa contá-las uma por noite.
Devido a esta constituição narrativa, a autora consegue registrar não só os contos em si, mas, entre eles, também registra a reação do garoto, seus questionamentos e impressões sobre os contos que a mãe narra. É uma característica marcante do livro e pode funcionar como um ponto de partida pra uma discussão mais profunda.

O livro contém seis histórias:

O Ogro e a Tecelã – Uma história que mescla muito bem todos os elementos de um suspense. Um ogro, uma tecelã, uma bruxa, uma mãe louca, um filho desaparecido e um marido cauteloso, em um reino que esconde algum segredo.

A Viola Encantada – As aventuras de Zózimo, o pequeno elfo, parece metaforizar, na minha interpretação, um programa assistencialista ideal e certamente faz ao transformador da arte na sociedade.

Água de Chuva (Amanari) – uma emocionante história de amor dos povos indígenas que mostra o ciclo perene da vida como o ciclo das águas.

A Rata e o Dragão – É um conto escrito em grupo. Para mim, se assemelha a uma releitura do clássico “o Leão e o Rato”. O texto apresenta várias reviravoltas interessantes.

Acorda, Catarina (meu favorito) – Uma moça intuitiva é taxada de louca por um comportamento e uma certeza peculiar. A cidade inteira zomba dela, mas ela mantém o hábito. Até que um acontecimento decorrente de sua mania muda toda a sua vida.

Natal com Jesus (na minha opinião, o mais surpreendente) – Uma menina cai num rio e é salva por um misterioso Jesus, o tipo é descrito como um mendigo. Quem é esse Jesus? É realmente inesperado o desfecho deste conto.

Novamente em linhas gerais, o livro propõe desfechos surpreendentes, rápidos (poderiam ser um pouco mais trabalhados e mais lentos, mas, considerando impacto positivo que me foi transmitido, não vejo erros na técnica escolhida) e abertos, características essas que tornam a obra uma leitura altamente estimulante e formadora de senso interpretativo e crítico. A autora claramente é dotada de um enorme talento, porém, eu gostaria muito de ler uma narrativa mais extensa e mais detalhada, feita para um público que já tenha senso crítico desenvolvido, para adolescentes ou adultos, por exemplo. Penso que seu estilo poderia ser mais bem aproveitado em coisa menos fantásticas, mas guardando sim o conceito do inesperado, como nos dois últimos contos do livro!  

Retenho-me por aqui.

Abraço!

Links: 


Edgar Izarelli.  

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Ola Edgar e Lua! Muito obrigada pela critica ao livro, e suas palavras foram mais que pertinentes, foram generosas.
    Quando coloquei estes textos, da forma que foram escritos, foi para provocar reflexão, e a crítica é parte fundamental
    do contexto. Existe um público entre o o infantil e o adulto que é carente de uma literatura mais "requintada" e foi
    realmente um risco lançar com este vocabulário, pois pouco escritores o fazem. Sou escritora das redes sosiais,
    e tenho leitores, em maioria adultos, mas percebo que se os pais não ajudam, buscando e filtrando leitura na internet
    para seus jovens leitores, os pequenos adolescentes ficam sem acesso para livros interessantes na rede. Por isso que
    o livro se fez impresso em papel. Desde que o lancei tenho andado em via sacra de escola em escola , pois gostaria de
    "promover" a aproximação entre o pequeno leitor e escritor. Talvez possamos mudar ou estreitar as relações entre ambos,
    Desmistificar é palavra chave no momento, e tornar-se acessível também.
    Um beijo grande da Hilda Milk/ Guerreira Xue

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  3. Edgar, parabéns pela crítica! Realmente, dá vontade de ler o livro! Guerreira Xue,
    bastante esclarecedora a explicação. Grande abraço
    Rodrigo da Rosa

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